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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Traquinagens


Haisai!

Vivendo nas florestas, pregando peças em humanos, cabelo vermelho, corpo de moleque...

Com essas características, eu poderia muito bem estar falando sobre o Curupira brasileiro, mas como não citei os pés virados para trás estou me referindo à lenda das matas de Okinawa: o Kijimuna!



                       
                        Kijimuna


Também conhecido como Bungaya (ser da cabeça larga), é o mais conhecido personagem do folclore de Okinawa, sendo inclusive tema de um grande evento que ocorre na ilha, o Kijimuna Festa!

Aparentando ser um garoto de cinco anos com longos cabelos avermelhados, o Kijimuna é conhecido por viver nas grandiosas árvores de Banyan, serem grandes pescadores e principalmente gostar de uma traquinagem!


                  Logo da festa de 2011

Um dos truques conhecidos é quando ele sobe em cima do peito da pessoa, impedindo ela de respirar ou mesmo gritar, fenômeno que em japônes é conhecido como “kanashibari”.

Diz-se que transformado em uma bola de fogo voando entre as matas, cortando caminho por entre as árvores, o Kijimuna pode se deslocar facilmente para cercar os humanos que o desafiarem!

Apreciadores da pescaria, são conhecidos por pescarem e comerem somente um olho do peixe, abandonando o resto no chão.

Ao se tornarem amigo de um ser humano, pode torná-lo rico e próspero, mas ao ser contrariado pode ser muito malvado também.
Contam-se muitas histórias de homens que foram ajudados por essas criaturas, como por exemplo, serem carregados em suas costas para atravessarem uma floresta, mas ao soltar um “pum”, o Kijimuna fica tão nervoso que larga a pessoa onde quer que esteja e desaparece, deixando-o perdido para sempre!

Na maioria dos contos, a amizade com humanos começa muito bem, mas por ganância ou relaxo destes, o final é sempre de brigas e mal-entendidos!

A única maneira de se espantar um Kijimuna é ameaçá-lo com a coisa que ele mais odeia nesse mundo, um polvo, que se jogado em sua frente, faz o mesmo entrar em pânico e fugir para nunca mais aparecer.


                    "Eca!!!"
             
Histórias sobre essa figura do folclore uchinanchu são contadas de geração para geração e nunca morrem, sempre se renovando a cada ouvido que escuta as traquinagens do Kijimuna!

Portanto, ao visitar Okinawa, respeite sempre a natureza e, se um molequinho de cabelos vermelhos quiser ser seu amigo, tome muito cuidado com sua ganância e puns!!!

Bye

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Hoshisuna ~A origem das Estrelas de Areia~


“Imagine estar ao lado da pessoa que se gosta andando na beira da praia!
E nessa praia beirando um mar limpo e cristalino, o som das ondas batendo na areia, no céu a lua cheia ilumina todo o horizonte!
E como um reflexo da abóbada celeste, no chão se pode observar estrelas de areia que cobrem todo o caminho, formando um cenário inesquecível em nossas mentes!”

Haisai!

A cena acima poderia estar em um desenho animado ou em um livro de romance fictício, mas esse lugar existe, e fica em Okinawa!

Reza a lenda que a muito tempo atrás, o Deus da Estrela Polar e a Deusa do Cruzeiro do Sul resolveram formar uma família com muitos filhos para iluminar o céu!
Ao consultarem o Deus Celestial sobre o melhor lugar para dar a luz, este olhou por todo o território terrestre e ao ver a ilha de Taketomi, avistou no mar um belo recife de corais e disse:

“-Ao sul da ilha de Taketomi existe um lugar onde as ondas do mar são suaves e sua água é morna, lá é o melhor lugar para dar a luz às suas belas crianças!”

Sem questionar a palavra do Deus Celestial, a Deusa do Cruzeiro do Sul desceu até o mar de corais e, ao comprovar a maravilha daquelas águas, pensou:

“-Sim, este é o lugar perfeito para minhas filhas crescerem até poderem subir aos céus para se juntarem a mim e juntas, iluminarmos as noites para sempre!”

Mas o governante dos mares, o Deus Sete Dragões do mar, não gostou da atitude da Deusa em dar a luz em seu território sem pedir permissão e, ao seu ver, poluir as águas que ele protege com tanto esforço!

Como castigo para tal desrespeito, chamou a Grande Serpente do mar e ordenou que ela fosse até a ilha e matasse todas as estrelinhas que encontrasse em seu caminho!
Obediente à seu mestre, a Serpente se dirigiu à ilha e, como lhe foi ordenado, matou a mordidas todas as inocentes estrelas que flutuavam nas águas mornas de Taketomi!

Seus corpos boiaram na água até chegarem na beira da praia, onde ficaram salpicadas de areia!

Ao sul da ilha de Taketomi, em Higashimaki, existe um Utaki (santuário em louvor ao Deus protetor da região), onde mora uma Deusa menor que, ao ver os pequenos corpos se comoveu intensamente com o trágico destino daquelas pobres criaturas!

Como todo ano os aldeões celebravam um festival em sua homenagem, a Deusa teve a idéia de por os restos mortais das estrelinha em seu incensário para que, junto com a fumaça, elas pudessem finalmente se juntar aos seus pais no reino celeste!

Todo ano ocorre esse festival e assim, pouco à pouco, as estrelinhas sobem aos céus para iluminarem a Terra com seu brilho puro e inocente!






 E essa é a história contada de geração para geração sobre a origem das Hoshizunas, as Estrelas de Areia, que encantam turistas de todos os lugares do mundo com sua beleza e mistérios naturais que somente uma lenda pode explicar sua origem!


            Lembrancinha vendida em Okinawa

Bye!

Fonte:  Vários sites continham a mesma história, então fiz um resumo dos textos!
Foto: Cortesia da Emi-chan!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Vida longa à Okinawa


Haisai

Primeiramente Feliz Ano novo (atrasado por sinal), que tudo dê certo nesse ano de 2012 e que todos os nossos desejos se realizem!

Vamos ao primeiro post do ano!

Um dos fato mais conhecidos do povo Uchinanchu é sua longevidade, sendo muito comum encontrar habitantes com mais de cem anos, em sua maioria com uma lucidez invejável à muitos jovens, ainda trabalhando em lavouras e lojas por todo o território de Okinawa!

Um estudo comprovou que na ilha há 50 centenários para cada 100 mil pessoas, sendo que a média para países desenvolvidos é de cerca de 10 a 20 centenários para cada 100 mil.

A expectativa de vida em Okinawa é a maior do mundo, tanto para homens quanto para mulheres, chegando a 82 anos em média, contra 78 no Japão.

Além de atingirem idades avançadas os okinawanos têm os menores índices de doenças cardíacas e outras mais graves como câncer, diabetes etc.

Por isso dizem que a fonte da juventude se encontra no coração e na alegria do Uchinanchu!



       
                     Alegria, imagem do uchinanchu


Mas qual o segredo para se ter uma vida tão longa?

“Aos 70 anos é uma apenas uma criança, aos 80 ainda um adolescente e, aos 90, se os seus ancestrais o convidarem a juntar-se à eles no paraíso, diga-lhes que esperem até os 100 anos, idade em que reconsiderará a questão.” –antiga inscrição encontrada em uma rocha próxima de uma praia em Uchina!

Os fatores atribuídos à longevidade dos uchinanchus seriam, a alimentação saudável e balanceada, o estilo de vida adotados pela ilha além do fator genético!

No cardápio okinawano encontramos uma variedade muito grande de verduras e legumes, além de frutos do mar e muitas frutas.

Estima-se que um uchinanchu consome apenas 25 por cento do sal e açúcar de uma pessoa de outra região por refeição, duas vezes mais peixe e três vezes mais vegetais, além de terem o hábito de parar de comer quando se estão cerca de 80% satisfeitos!

E temos também o “embaixador da culinária de Okinawa”, o amargo Goya!


                                Goya

Muito famoso entre os uchinanchus e seus descendentes, o Goya é um vegetal típico de Okinawa, tendo como principal característica seu gosto amargo, sendo o terror de muitas crianças (confesso, eu odiava Goya quando era mais novo),mas que contém muitas vitaminas e trazendo diversos benefícios à saúde!

O prato mais conhecido de Okinawa é com certeza o Goya Champuru, uma espécie de “salada” de Goya (Champuru em uchinaguchi significa mistura), com tofu, carne de porco, ovos, grãos de soja e é claro, Goya!
                            Goya champuru

Eu recomendo ir à um restaurante okinawano para experimentar os pratos típicos de lá, que apesar de não serem baratos, são muito bons!

Outro fator decisivo é o estilo de vida levado pelos uchinanchus!

Levando ao pé da letra o “Nutidu Takara”, o modo de se viver sem estresse, respeitando os idosos, sempre vendo o lado bom da vida, ajuda (e muito) à se ter uma vida longa!






Acumular bons momentos de vida é a chave não somente para se viver mais, mas também para se aproveitar ela por completo!

Então por mais que a vida esteja complicada, lembre-se sempre:

Nankurunaisa!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Herói Uchinanchu


Haisai!

Quando o mal aparece na ilha de Okinawa, um homem é escolhido pelo gênio das “Mabui stones” para proteger a ilha dos seres malvados. Esse herói é chamado Ryujin Mabuyer (琉神マブヤー).





É com a lenda acima que somos apresentados ao verdadeiro super-herói de Okinawa, que ao estilo dos melhores tokusatsus japoneses, conquistou até mesmo o público de fora da ilha!
Apesar de não contar com um grande orçamento, e ter atores não muito famosos, a série possui um carisma regional que faz valer a pena assistí-la!

Além de poder ver os cenários baseados em Okinawa, também há muitas referências à cultura da ilha, inclusive com aulas de uchinaguchi!

História:

No ano de 2008 a ilha de Okinawa é um lugar bonito e pacífico. Sem o conhecimento dos habitantes da ilha, um grande mal aparece.
Os monstros de Majimun planejam roubar as nove lendárias Mabui Stones.
É assim que o poderoso Ryujin Mabuyer aparece para destruir o mal e salvar o povo de Uchina!
O escolhido da primeira fase se chama Kanai, que além de passar por uma crise de poder, ainda tem que enfrentar o próprio irmão na batalha contra o exército maligno!
E como toda história de super-herói o bem triunfa no final!

As lendárias Mabui Stones tem dentro de si todo o poder do tesouro cultural de Okinawa, elas são:

Uchinaguchi Mabui Stone: Se perdida, a língua materna de Okinawa será esquecida para sempre.

Ishiganto Mabui Stone: Se perdida, a proteção de Ishiganto desaparecerá, ocorrendo desastres e acidentes.

Te-ge- Mabui Stone: Se perdida, toda o modo de viver dos uchinanchus se perderá.

Eisa Mabui Stone: Se perdida, não será possível dançar eisa nunca mais.

Cha-gan-jyu Mabui Stone: Se perdida, não haverá mais ninguém saudável.

Ichariba Choode Mabui Stone: Se perdida, toda a amizade do mundo se perderá.

To-to-me Mabui Stone: Se perdida, o respeito aos ancestrais será esquecido.

Nutidu Takara Mabui Stone: Se perdida, a vida não será mais valorizada.

Kacha-shi Mabui Stone: Se perdida, não haverá mais kacha-shi nas danças.

                       Mabui Stone



É com essa premissa, mesclando cultura e ensinamentos sobre a língua okinawana, a série se tornou um sucesso entre os “Heróis locais”, como são chamados os seriados baseados em províncias específicas do Japão!

Curiosidades

-O vilão se chama Habu Devil, habu é a cobra típica de okinawa.
-Existem três Ryujin Mabuyer, sendo dois homens e uma garota

-Os capangas são somente dois, bem desengonçados por sinal.

-Um filme para cinema será lançado em 2012, tendo como protagonistas Yamada Shintaro (membro da banda Saata Andagi) e ISSA ( líder do grupo Da Pump).


-A música tema é cantada pela banda peruana Diamantes

Glossário

-Majimun: Demônio ou monstro em uchinaguchi
-Ishiganto: São pedras que podem ser encontradas em toda Okinawa, diz-se que protegem as pessoas de acidentes nas ruas
-Mabuya: Espírito em uchinaguchi
Kacha-shi: Dança onde todos se levantam e começam a dançar, muito comum nos finais de eventos

Fonte: Site Mabuyer Project

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A alma da música


Haisai!

Continuando o assunto sobre música de Okinawa, falarei um pouco sobre os instrumentos tradicionais!

Na minha opinião o Sanshin (三線) representa a música okinawana somente pelo seu som, que se caracteriza por toques rápidos e de tom forte, que em conjunto com o ritmo do Taiko (沖縄太鼓) e o “Iya sa sa” é capaz de tocar o coração de todos aqueles que ouvem a chamada “shimauta” (島歌) independente de ser uchinanchu ou não!

A origem do sanshin é um pouco controversa, dizem que tem mais de 4000 mil anos, que nasceu no Egito, mas o único consenso que se tem é que o instrumento chegou em Okinawa através da China!

O sanshin tradicional é revestido com couro de cobra, mas por proibições de exportação de material de origem animal geralmente se usa couro sintético que se assemelha ao original!


                                                                                          Sanshin tradicional 

Assim como seu nome diz, possui três cordas e é tocado com um dedal feito de chifre de boi (hoje em dia tem quem prefira tocar com palheta de violão mesmo!), e é bem leve se comparado com instrumentos de porte parecido, banjo ou bandolim por exemplo!

É importante frisar que o sanshin e o shamisen (三味線) são instrumentos diferentes, sendo o segundo derivado do primeiro, e usados por estilos musicais completamente distintos (além de o shamisen ser tocado usando um tipo de palheta que se assemelha à uma espátula, o Bachi.), enquanto o sanshin é a alma da música de Uchina, o shamisen é usado no resto do Japão em músicas tradicionais!

Há uma lenda em Okinawa que diz que o sanshin foi criado por um rapaz chamado “Akainko”, algo como filho do cão vermelho, assim chamado pelo fato de sua mãe ter criado um cão vermelho depois da morte de seu marido, e os moradores da aldeia acharem que o pai do rapaz era o animal!

Um dia, numa inspiração divina, ele decidiu criar um instrumento feito do tronco de uma amoreira, usando pêlos do rabo de um cavalo como corda (!), criando assim o primeiro sanshin de Okinawa, com o qual Akainko espalhava a alegria por toda a ilha!

Um fato interessante: com o término da Segunda Guerra Mundial, depois da horrível Batalha de Okinawa, os moradores da ilha não tinham material nem dinheiro sobrando para montar um sanshin tradicional, então usando latas de comida deixadas pelos exércitos e muita criatividade construíram um sanshin feito de lata, o “kankara sanshin” (缶から三線), que tem um som mais melancólico, soando mais triste, mas com a mesma base musical do sanshin!

                                                                                            Kankara sanshin

Eu, particularmente, gosto muito das músicas de Okinawa, das mais tradicionais até o pop, pelo fato de sempre se falar de um lugar maravilhoso e com uma cultura incrível!

Ps: Semana que vem eu irei para Okinawa (Finalmente!) participar do Uchinanchu Taikai e reencontrar minha Oba (avó) que não vejo fazem alguns anos, portanto o próximo post provavelmente será diretamente de lá, contando um pouco da experiência de se estar no “lugar que sinto saudades sem nunca ter estado lá!”

Bye!

Fontes: Basicamente eu fiz um resumo do que eu já sabia com a ajuda dos sites “A arte de tocar Sanshin” e da Wikipedia em Japonês

Notas:

三線: Literalmente “três cordas”.
Shimauta: Toda música que fala sobre Okinawa e sua cultura.
Kankara sanshin: Literalmente “sanshin feito de lata”.